domingo, 27 de junho de 2010

Kaufman no País dos Espelhos




Ao abrir este blog uma das questões a se preencher no perfil é uma lista de filmes preferidos. Essencialmente as listas (sejam do que for) sempre padecem da arbitrariedade com que são compostas. Seja pela memória falha do inventariador ou por algum juízo de gosto discutível. O que sei é que dentre os poucos filmes que citei (das centenas que adoro), ficaram de fora alguns exemplares que contam com Charlie Kaufman em seus créditos. Isso certamente se deu por deficiência de minha (cada vez mais) vacilante memória, visto que Kaufman é uma das maiores fontes de boas idéias a circular atualmente pelos estúdios de Hollywood. Os filmes que contam com sua grife estão entre os mais ousados experimentos narrativos produzidos na última década nos Estados Unidos. Digo que Kaufman é uma grife, pois é motivo de orgulho para os realizadores estampar em cartazes seu nome. Não é comum no cinema norte-americano um roteirista que ofusque atores e diretores como este o faz, trazendo para si as luzes até então negligenciadas a esta injustiçada categoria. Minha primeira experiência com seu trabalho foi com o filme “Quero Ser John Malkovich” (Being John Malkovich, 1999) de Spike Jonze. Apesar da excelente plasticidade e ritmo impressos ao filme pelo diretor, é no roteiro que o filme encontra a sua força. Kaufman, em seu primeiro trabalho no cinema, constrói uma fábula sombria pautada na célebre frase de Andy Warhol, de que todos desejam seus 15 minutos de fama. No filme, um titereiro (interpretado por John Cusack) que ganha a vida nas ruas de Nova York com um teatro de fantoches, precisa arrumar um emprego que pague as contas. Contratado como arquivista de um estranho escritório que fica no andar 7½ de um edifício no qual todos andam agachados por conta do ínfimo pé direito do prédio, o personagem de Cusack acha um pequeno túnel escondido atrás de um armário, que, quando perscrutado, desemboca na mente do ator John Malkovich. Durante 15 minutos (daí a referência à Warhol), a pessoa vê e sente o mundo pela perspectiva de um astro de Hollywood. Não demora muito e o titereiro, aliado à uma colega de trabalho pela qual nutre uma paixão não correspondida, passa a explorar a descoberta cobrando entradas para a mente do ator.
Em seguida assisti a mais uma aula de como se escrever um roteiro surpreendente (ainda que formalmente linear) no divertido e irônico “Adaptação” (Adaptation, 2002), sua segunda parceria com Spike Jonze. Neste, Kaufman vai mais além do que fora em “... Malkovich”, tendo inclusive revisitado algumas passagens do primeiro filme pela perspectiva dos bastidores. Nesta trama, a metalinguagem corre solta ao se pautar em suas frustradas tentativas de adaptar o best-seller “O Ladrão de Orquídeas” após o sucesso de seu primeiro filme (justamente Quero Ser John Malkovich). Com isso Kaufman alça-se ao protagonismo da história, colocando-se como personagem de si próprio. Até aqui o que se tem é uma narrativa intra-referente sobre os caminhos e percalços da criação artística, recurso esse característico de experimentos contemporâneos de arte. Mas a partir da inserção de seu irmão gêmeo na trama (ambos interpretados por Nicholas Cage em uma feliz atuação, bem distante de sua canastrice habitual), as coisas assumem um viés engraçadamente pertubador. Charlie e Donald Kaufman são irmãos gêmeos idênticos: um é o famoso e premiado roteirista; o outro um ingênuo homem em busca do mesmo sucesso de seu irmão. Um é inseguro e neurótico; o outro confiante e bem-humorado. Dois lados de uma mesma face. O único problema é que na vida real Kaufman não tem nenhum irmão chamado Donald, muito menos gêmeo dele. O mais interessante de todo este jogo narrativo é que a fantasia transbordou para a realidade com a indicação ao Oscar 2003 dos irmãos Kaufman na categoria melhor roteiro adaptado, configurando a primeira vez em que um personagem fictício encabeçou a lista de concorrentes ao prêmio. Esta questão é fundamental na poética do roteirista: o simulacro, e isso pode ser percebido com mais ênfase em sua última realização, o filme “Sinédoque, Nova York” (Synedoche, New York, 2008), o qual marca também sua estréia na direção. Neste, um diretor de teatro (o excelente Phillip Seymour Hoffman), recebe uma bolsa de incentivo a produção teatral que aplica no devaneio de reproduzir em um galpão alugado sua vida e a própria cidade de Nova York. Injustamente esquecido pelas distribuidoras e público brasileiro, o longa se baseia na figura de linguagem (sinédoque) segundo a qual se toma o todo pelas partes ou vice versa. O personagem de Hoffman entra em um processo de imersão em sua criação que leva anos sem nunca ser concluída. Os atores ensaiam dia após dia uma peça que nunca estréia, passando a, literalmente, viver aquela realidade simulada. Estes, passam a representar o próprio processo de montagem da peça, contando com um ator que interpreta o diretor e mais outro que interpreta o intérprete do diretor. Parece confuso, e é, mas tudo faz sentido quando analisado em conjunto com as outras obras de Kaufman. O roteirista tem verdadeiro fascínio pela idéia do simulacro, ou a tentativa de recriação de seu universo em linhas menores; um micro-cosmo organizado à partir dos menores detalhes. De certa forma, cada personagem é uma faceta do próprio Kaufman: o titereiro de John Cusack (o que é um autor senão o manipulador de seus personagens?), sua visão duplicada em Nicholas Cage e o diretor teatral de Seymour Hoffman que ambiciona replicar o mundo à sua volta.
O próprio John Malkovich, mergulhado em uma distorção de si mesmo, iguala-se à réplica da cidade de Nova York reproduzida em um galpão no filme Sinédoque. Ambos funcionam como imagens fractais (formas geométricas onde a menor parte ampliada reproduz o todo, podendo ser repetida ao infinito). Temos um ator interpretando uma imagem de si no primeiro filme. No segundo um ator interpretando o(s) roteirista(s) do próprio filme em que atua. No terceiro um diretor teatral que contrata um ator para interpretá-lo e outro para interpretar o ator que o personifica, alocando-os em um simulacro, não só da cidade, mas de suas próprias vidas. Há uma evidente multiplicação de imagens que discutem e divergem entre si. Sou o que penso que sou, o que os outros pensam de mim ou uma terceira e desconhecida persona, amálgama de todas estas perspectivas? É isso que Kaufman tenta entender. O que nos leva ao conto “As Ruínas Circulares”, de Jorge Luis Borges (olha ele aqui novamente) no qual um xamã empreende um esforço de recriação do homem, sonhando-o noite após noite:
O propósito que o guiava não era impossível, ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade.[1]
Entretanto, o xamã se vê atemorizado, após "construir" seu filho, diante da possibilidade de que este viesse a ter consciência de sua natureza mimética:
Temeu que seu filho meditasse nesse privilégio anormal e descobrisse de algum modo sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projeção do sonho de outro homem(...)[2]
Mas não seríamos todos um composto de projeções? Nossa e de outros? Tal qual Kaufman e seus duplos, o personagem de Borges chega à conclusão de que ele poderia também ser uma reles aparência de um alter-sonho.
O escritor irlandês Oscar Wilde certa vez, ao comentar sobre os principais personagens de sua obra-prima “O Retrato de Dorian Gray” (outra obra que explora a idéia de duplo), disse que Basil Hallward seria a visão que teria de si; Lorde Henry Wotton responderia à imagem que os outros teriam dele e, por fim, o protagonista Dorian Gray seria sua idealização.
Kaufman explora tais projeções ao encarar-se constantemente ao espelho. Como espelhos refletindo outros espelhos e replicando tais imagens ao infinito.
________________________________________________________

[1] BORGES, Jorge Luis. As Ruínas Circulares in: Ficções. 3ª Ed: São Paulo, Ed. Globo, 2001. Pg.66
[2] IDEM. pg.71

SERVIÇO:
Todos os filmes citados saíram em DVD no Brasil:
Adaptação (fora de catálogo)
Quero ser John Malkovich
Sinédoque, Nova York

Veja também:
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (roteiro de Charlie Kaufman e direção de Michel Gondry)

sábado, 26 de junho de 2010

Trilogia da Solidão

1. Cotação sobre Amor e Desejos Afins
Diante do prazer simulado,
cabe atentar-se para a exatidão deste sentimento.
Se as doces putas fingem de lá sentir prazer,
fingimos de cá ser amados.
Entre a volúpia e a sublimação
existe uma margem de cotação.
Diria inclusive,
sem pudor em parecer-me confortável por conveniência de hábitos,
que tal tipo de "amor" aos outros se faz superior.
Pois há nesta relação cambial uma confortante paridade,
conquanto ao bolso pese, a durabilidade da paixão.
Levando em conta que as taxas de câmbio de uma bela moça
sejam, pois, um exato conto,
pode-se calcular quanta história este amor poderá ainda escrever.
O coração nos bolsos sabe, o tempo que lhe resta para embargar a desilusão
das más surpresas.
O sentimento que se pode contabilizar alça a sublimação,
pois, o bom amor é uma ciência exata.
2. Complete com as palavras: Amo (a), odeio (a), aprendi, aprendeu, você ou Eu.
Eu ___________ você.
Você me __________ .
____ ainda não ___________ a amar.
Porque as batidas do coração não se propagam no vácuo.
3. Dial(eu)tica
Universo circunscrito.
Em mim escrito.
Escrituras imemoriais redigidas pela fé incondicional,
alicerçando o império de palavras do Verbo seminal.
Degolo o rei virgem e tomo posse de tinta e pena.
O fim dos deuses converge com o início do homem,
redigindo as linhas do próprio folhetim.
Nos riscos corridos, converto-me em anjo caído.
Munido de asas estéreis, desabo no oceano.
O mar negro seria os céus em negativo?
Ou seriam os céus o reflexo do mar?
Alter-flexo.
O Real reflexo.
Mas se reflexo, real?
Paradoxofagia.
Alimento-me desta imagem que sempre retorna,
em caótica harmonia.
Imagem sei ou sou?
Necessária confusão.
Necessária confissão,
diante da éfigie que lança a primordial questão:
sou o espelho ou o homem que se contempla?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tlön

Sobre a origem do nome deste blog, para quem nunca leu Borges, vale conferir ao menos este seminal conto: "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius" encontrado no clássico "Ficções", publicado no Brasil pela Ed. Globo. Em linhas gerais trata-se da descoberta, pelo também escritor Adolfo Bioy Casares, de um verbete na Enciclopédia Britânica sobre um país chamado Uqbar, o que acaba intrigando Borges que, ao procurar por tal verbete, não o encontra. Na verdade esta seria apenas a ponta do iceberg de uma conspiração de intelectuais que criaram todo um universo (Orbis Tertius) no qual um planeta (Tlön) se destaca pela sua natureza ideal, o qual tinha por função substituir nossa realidade por este universo fictício. Para maiores informações leiam o completo artigo do Wikipedia americano.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sobre dor, partos e começos


Sempre tive dificuldades em começar qualquer empreendimento em minha vida, em tomar iniciativas, a princípio simples, mas que em sua práxis mostram-se altamente custosas. Sair da anestesia da vida sempre me pareceu um esforço sobre-humano, como se a cada manhã, ao olhar para o sol, visse uma medusa a empedernir não só meus membros mas minha vontade. O primeiro passo, o primeiro beijo, a primeira trepada, enfiar a cabeça de baixo da água gelada no inverno, levantar de madrugada para mijar, erguer-se da cama para o trabalho, iniciar a leitura de um volumoso tomo, começar uma série de exercícios, estudar para provas, cobrar o salário atrasado ao patrão, cortejar a mulher desejada, escrever o primeiro parágrafo de um romance. Cada uma destas decisões necessitam de um impulso inicial que não somente garantam a conseqüência imediata ao ato, mas o perpetuem positivamente no tempo. Garantir, pois, que seus passos lhe garantam antes de tudo a certeza do caminhar. Mas a certeza é nada mais do que ilusão barata vendida aos homens. A certeza de Deus, da vida após a morte, da honestidade do político, da fidelidade dos companheiros, do dia após a noite, e da noite após o dia, não passam de perspectivas falhas de frágeis verdades. Não há certeza de nada, portanto cabe-nos arriscar, ainda que corramos o risco de sermos sugados pelo abismo que não conjecturamos logo à frente. Por isso me arrisco aqui (ou aí, depende do ponto de vista), neste lado do mundo até então comodamente negligenciado. Lanço-me neste espaço virtual, porém, certamente, não menos real (ou fictício) do que tudo que me circunda por trás desta tela. Sei que é doloroso começar, mas depois que a cabeça recebe o choque da água gelada, o resto do corpo responde bem. A dor de um parto postergado por nove meses ou mais (e existem partos que duram anos) apenas antecedem as belezas e feiúras da vida.
Pode parecer demasiado hiperbólico usar o medo da dor como subterfúgio para a minha procrastinação crônica, como o adiamento sucessivo da abertura de um blog por exemplo, mas basta relativizar a dor como algo não necessariamente relacionado aos grandes dramas do homem, mas enquanto elemento intrínseco às pequenas ações cotidianas, ainda que não relevantemente quantificáveis. Dor é toda surpresa, o inesperado nos tomando de assalto, vindo ele de onde vier. Seja de uma experiência que mude os caminhos da sociedade ou apenas o seu mundinho privado. Dor é toda novidade. Dor é início e nunca constância. O primeiro orgasmo pode ser confundido com dor, por falta de definições sensoriais referentes ao choque espasmódico que irrompe para fora do corpo. É algo novo, e isso nos lança em um espaço de confusão mental e física que necessita de parâmetros para ser entendida. Mas como ter parâmetros suficientes para medir a maior sensação experimentada até então? Tudo parece pequeno diante de tal estado de intensidade que, posteriormente, associamos ao prazer, mas que em sua gênese conserva-se como o mais cristalino exemplo de dor. Todo prazer é a conversão da dor pela repetição.
Iniciar é jorrar. Iniciar é cair de cabeça. É nascer dia após dia ou nascer à noite para morrer pela manhã diante de um espelho embaçado de banheiro e tendo somente um sol cansado como testemunha.
O que importa é que resolvi abandonar minha reclusão para morrer junto de vocês que aí estão lendo estas linhas. Linhas sem nenhuma importância efetiva além de gravar minha dor parturiente para a posteridade dos fósseis virtuais no qual um dia todas estas palavras hão de se converter.
Start dado. Preparando para a contagem regressiva.
3,2,1...
nasci (que ainda tenho muito para morrer nesta vida).