quarta-feira, 7 de julho de 2010

A peleja da arte contemporânea com a cultura de massa


Saiu há menos de um mês uma entrevista no blog do Luciano Trigo (autor de "A Grande Feira - Uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea") com Vik Muniz, na qual, entre outras coisas, ele trata das críticas recebidas pelo fato de ter produzido uma abertura de novela. Vale a pena dar uma lida, pois o que o artista fala é crucial para entendermos onde e como se estruturam os discursos e interesses do cenário de arte contemporânea. Muitas vezes procedimentos e fazeres secundam discursos hábeis (ainda que muitas vezes estéreis) em sua política de construção de barreiras de contenção para o público. A bem da verdade parece haver um consenso entre artistas e curadores de que o discurso deva ser diametralmente oposto ao fazer, quanto mais complexo no verbo, mais primário enquanto objeto/imagem. Nesta operação reside um complicado sofisma, no qual o público, para se interessar por tais imagens frágeis, precisa acessar sua mensagem, ato este obstruído pela falta de instrumentalização conceitual, o que acaba por diluir a fruição de uma obra de arte. Nesta lógica, o público dificilmente se agradará por objetos de gosto duvidoso para sua razão, como um mictório ou trouxas ensanguentadas, e nem poderá decodificar a defesa conceitual de tais procedimentos, repelido que é por idéias que parecem só fazer sentido para quem as concebeu.
Não tive a oportunidade de ler a obra de Trigo, e sei que sua implicância com a arte contemporânea faz coro à adorável e sã rabugisse de Ferreira Gullar em relação ao mesmo expediente, mas acredito que tais frentes de oposição são essenciais para se entender quando perdemos (e me coloco neste bojo pois além de formado neste meio, trabalho com arte-educação) o público. E onde entra Vik Muniz nisto tudo? Nas mega exposições mundo afora, na lotadíssima mostra feita há dois anos no MAM-RJ, nas páginas de jornal e, agora, todas as noites na novela das oito. Obviamente que onipresença na mídia não legitimam a qualidade e relevância de nada nem ninguém, mas julguemos sua obra pelo que ela tem de potente enquanto linguagem, discurso, imagem, e não pelo fato de ter sido cooptada pelo mercado de massa. É preciso deixar de lado a hipocrisia de determinadas falas, nas quais interesses elitistas são mascarados por lamúrias e críticas à falta de interesse das massas por arte contemporânea, e percebermos que este público é ávido por novas idéias, basta que a arte institucionalizada deixe de ter nojo de quem consideram como gente pobre e iletrada.