segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dois excelentes exemplos de web-comics

Tira do cartunista americano Drew Weing
Em tempos de iPad, quando mais uma vez se proclama o fim dos livros e publicações físicas em geral (na mais significativa tentativa de bibliocídio desde o advento da Televisão) é de se esperar que autores e editores busquem no meio digital novas formas de contar (e comercializar) velhas estórias. No início desta década a maior prejudicada com a popularização da internet e de sistemas de compartilhamento de arquivos como o (falecido?) Kazaa e Napster, foi a indústria da música. A banda Metallica encabeçou uma fervorosa caça às bruxas contra os pirateiros, mas o resto é história e sabemos quem ganhou e quem perdeu esta batalha. Nesta segunda década é o mercado editorial a bola da vez. Entretanto, se com o mercado fonográfico o que mudou de maneira mais drástica foi a forma de comercializar, mas não de se produzir música, em relação à literatura (e linguagens congêneres como os quadrinhos), cabe aos realizadores não somente o desafio de driblar os apólogos do Copyleft, mas de refletir como esta plataforma pode contribuir potencialmente para suas pesquisas estéticas. Confesso que ainda não fui fisgado por esta tendência de ler diante de uma tela brilhante durante horas, queimando minha retina. Porém, como qualquer suporte, a mídia digital tem recursos que devem ser levados em consideração enquanto proposição de novas formas de narrativa. É preciso avaliar o que tal suporte agrega à tais linguagens e como isto pode ser mais interessante do que sentar-se confortavelmente em sua poltrona preferida e degustar um livro ou gibi. Mais do que transpor uma página de livro ou uma tirinha de quadrinhos para uma tela, é preciso refletir tal espaço enquanto elemento narrativo.
Acima e abaixo seguem os links de dois excelentes exemplos de quadrinhos aplicados na Web. Ambos extremamente simples, e que fogem da cafonice de simular páginas sendo passadas, digno dos recursos mais manjados do Windows Movie Maker. Particularmente, no que tange os quadrinhos, prefiro este tipo de experimentação mais crua, sem perfumarias como sons e movimento, pois isto acaba por configurar uma forma precária de animação (basta ver esta onda de Motion Comics que têm fascinado as editoras Marvel e DC Comics, mas que na minha nada humilde opinião, são caça-níqueis de quinta categoria). Prefiro muito mais autores que extraiam o máximo com os menores recursos possíveis. Explorar a verticalidade ou horizontalidade da interface cibernética foi o caminho escolhido pelos autores abaixo, tarefa esta, diga-se de passagem, executada de maneira simples, brilhante e divertida. Curtam!
Tira do cartunista francês Raphael B.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A transitoriedade é mais do que o passar de páginas, é antes o esquecimento sumário do que ficou para trás.

Transubstanciação, 2009
30 x 42 cm.
Nanquim sobre papel

Contos Singelos para Crianças Desajustadas 02

"Feel guilty!"

O padre inquire a menina sobre seus pecados. A menina não tem pecados. Mas o padre não se satisfaz com tal resposta. “Todos têm pecados.” - ele diz - “Coloque a mão na consciência e vasculhe sua memória em busca dos descaminhos que direcionam os homens ao erro.”
A menina põe-se a pensar:
“Eu... puxei o cabelo de minha irmã.”
“Isso não é suficiente minha jovem.” - Diz, meneando a cabeça em tom de reprovação.
“Eu... quebrei o vaso de flores da mamãe e escondi os cacos.”
“Pois, saiba que a jovenzinha omite a verdade não de mim, mas de nosso Senhor Jesus. Esforce-se mais.”
“Eu... eu... não comi a jan...”
“CHEGA!!!” - Berrou o padre, estapeando o rosto da criança. - “Todos têm pecados menina. Não seja arrogante. Confesse-se. Salve-se enquanto ainda pode.” - Insiste, intimidando-a ainda mais.
A criança nada encontra que possa satisfazer o obstinado sacerdote e angustiada irrompe em lágrimas. Porém, nem isto eclipsa a ansiedade do padre em salvar mais uma pobre alma confusa. É quando a menina solicita que lhe dê uma hóstia consagrada. Diante de tal absurdo o padre se indigna: “Como posso consagrar-lhe o corpo de Cristo se nem ao menos tem a dignidade de confessar tuas falhas diante Dele?”
“Pois, dá-me o corpo de Cristo que em retribuição dou-lhe o meu.”
“Está louca?”
“Não senhor, mas somente agora compreendi que para ter com Deus preciso antes pecar. Pois pequemos juntos, para que pela expiação possamos ascender aos céus em glória.”

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Anomalias que, se não existem, precisam ser inventadas

O Hipsodonte, 2009
30 x 42 cm.
Nanquim sobre papel

Contos Singelos para Crianças Desajustadas 01



O menino tinha uma cobra, e a alimentava com ratinhos brancos. A cobra rastejava e paralisava os ratinhos apenas com seu olhar, dando o bote e esmagando-os em um faminto e gelado abraço. O menino se regozijava ao ver os animaizinhos asfixiados se contorcendo até os olhinhos vermelhos saltarem das órbitas. A mandíbula da cobra, sobrenaturalmente abrindo-se até engolir os roedores inteiros, parecia ao menino, tão bela quanto o desabrochar de uma flor.
Certa vez, o menino deu à cobra um ratinho cego que, sem poder enxergar, nada tinha a temer do olhar da serpente. A cobra abriu sua mandíbula, lançando a língua bifurcada em direção à sua vítima. Porém, o pequeno roedor, apenas sentindo o hálito gélido que formava uma espécie de vórtice a circundá-lo, corajosamente lançou-se no interior da bocarra. O rato pegou a cobra desprevenida, devorando sua língua e engasgando-a.
O couro da cobra passou a ser a morada do rato, que, disfarçado, recebia as oferendas vivas. O rato-cobra enganava seu servo, fingindo estrangular seus irmãos, mas libertando-os ao virar das costas do entediado menino que já não via nestas mortes a beleza que um dia tiveram.
Dia após dia os ratinhos libertos se acumulavam entre paredes, atrás de armários, debaixo de camas e em sótãos escuros. Formavam uma legião sob o comando de seu Deus amalgamado. Um dia, quando o menino foi alimentar o Deus Cobrato, seus antigos cativos, sempre à espreita, insurgiram contra ele. O menino caiu, sendo imediatamente tomado pelos revoltosos roedores que o paralisaram somente com o toque de suas patinhas vingativas. O Deus Cobrato tinha um exército de ratinhos que passaram a alimentá-lo com meninos brancos.