sábado, 27 de novembro de 2010

Contos Singelos para Crianças Desajustadas 03

Inimigo íntimo


O primeiro ato do dia de cada homem, após violentar-se para sair da cama, é encarar-se ao espelho.
Neste ato obsessivo, perscrutamos cada detalhe de nosso rosto em busca de alguma anomalia; de alguma quebra de padrão que nos revele nosso maior temor: que o tempo passou.
Cada manchinha, cada pequeno vinco que se estenda sob as pálpebras ou corte a testa como cânions, são provas vestigiais desta verdade que tentamos negligenciar, mas que o espelho, sadicamente, faz questão de evidenciar.
Olhar-se ao espelho de manhã é uma maneira de atestarmos que aquele que dormiu é o mesmo que acordou. Porém, às vezes, quem encontramos diante de nós é alguém que não podemos dizer com certeza de onde conhecemos. Há algo de familiar neste rosto que nos encara com o mesmo olhar atoleimado que o nosso, a encarar a mesma questão: “Conheço esta pessoa de algum lugar, mas não me lembro de onde”.
Esta manhã executei o mesmo ritual de todos os dias:
O despertador do celular toca.
Aciono a soneca para que possa dormir mais 15 minutos.
Toca de novo.
Mais um pouco de soneca.
Toca de novo e desta vez não dá para postergar o sono.
Levanto-me com o peso do mundo sobre as costas.
Entro no banheiro, acendo a luz e vejo alguém.
Este alguém se parece com um outro alguém bastante familiar.
Passo a mão nos cabelos, e do meio deles um fio de prata se projeta.
Viro a cabeça de maneira que possa ver melhor e percebo tratar-se de um cabelo branco.
Cato um pinça no armário e arranco-o pela raiz.
Minha mãe diz que para cada cabelo branco arrancado mais dois nascem no lugar.
Penso que deve ser superstição.
Porém, no dia seguinte, após o mesmo processo de despertador tocando e sonecando, acendo a luz do banheiro e olho-me no espelho.
Mexo no cabelo e para minha surpresa (mas não de minha mãe), encontro mais dois cabelos brancos situados na mesma área onde residia o fio anterior.
Penso muito se devo proceder da mesma maneira, mas não resisto e arranco-os.
No dia seguinte são quatro fios.
No dia seguinte são oito.
Ao longo do ano são algumas centenas.
Quando chegam aos milhares, passo a raspar toda a cabeça.
Acordo mais um dia da minha vida e percebo que enquanto me detive em meus cabelos brancos, as rugas tomaram meu rosto de assalto. E se antes reconhecia algo de familiar na pessoa que se colocava à minha frente a cada manhã, desta vez só vejo um estranho. Uma pessoa que me amedronta com seu olhar endurecido, opaco, emoldurado por bolsas de gordura. Definitivamente não há nada de confortavelmente familiar perdido nestas feições. E agora entendo que os cabelos brancos foram apenas uma artimanha criada para desviar minha atenção enquanto esta pessoa tomava o meu lugar.
Quebrei o espelho e recusei encarar este invasor mais outra manhã.


Igor Valente, 29, luta diariamente contra seu arqui-inimigo Cronos e enquanto não acha uma arma que paralise o tempo, evita o espelho e se conserva na atemporalidade das letras.

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