domingo, 28 de novembro de 2010

Vestígios como elementos probatórios da fabulação: Parte 1

A presente série de posts (originalmente, parte de minha monografia) tem por intuito refletir os mecanismos de instauração da fábula a partir de três instâncias específicas:
1)    A fábula inserida em um contexto etnográfico; enquanto formuladora de sentidos culturais e bússola moral de um determinado grupamento social;
2)    a fábula na cultura de massa, fazendo uso de mecanismos midiáticos a fim de instaurar um produto no imaginário popular;
3)    a fábula no contexto da arte contemporânea, fundamentando ações de caráter político.

Um dos elementos mais fundamentais de um corpus narrativo reside na fabulação, elemento este dispositivo de sentidos, sem o qual tais relatos não seriam mais do que discursos descritivos prescindidos de valor simbólico. A fábula negocia constantemente com a realidade ao se fundar como interlocutora moral de uma narrativa. Dos livros sagrados como o velho testamento e o alcorão, às fábulas de Esopo (620-560 a.C.) e dos Irmãos Grimm (séc. XIX). Pode-se dizer que toda a construção identitária de um indivíduo é erigida sobre bases fabulares, e as sociedades tribais transitam como nenhuma outra por estes intrincados caminhos, provando que a fabulação não se faz menos real do que qualquer experimento científico, já que sua consciência de mundo é regida a partir deste prisma. “O sertão é o mundo e o sertão é dentro da gente”, já disse Guimarães Rosa (1908-1967) no épico sertanejo Grande Sertão Veredas, e tais palavras ressaltam como o conceito de verdade transcende a mera comprovação científica pautada em dados ontológicos; é, sobretudo, aquilo que se vivencia enquanto norma; que molda um ser em toda sua complexidade e o afeta de maneira direta ao delimitar seus espaços de atuação sócio-moral.
Com relação às sociedades tribais, Claude Lévi-Strauss (1908) apresenta alguns curiosos relatos no texto O Feiticeiro e sua Magia, pautado na seguinte premissa:
Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que a eficácia da magia implica na crença da magia, e que esta se apresenta sob três aspectos complementares: existe, inicialmente, a crença do feiticeiro, na eficácia de suas técnicas; em seguida, a crença do doente que ele cura, ou da vítima que ele persegue, no poder do próprio feiticeiro; finalmente, a confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam a cada instante uma espécie de campo de gravitação no seio do qual se definem e se situam as relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça.1

O que se entende desta colocação é que o indivíduo só pode se constituir enquanto Ser ao entender-se como parte de um macrocosmo cultural, no qual apenas aqueles que respeitam o contrato social firmado por seus antepassados podem sobreviver. O indivíduo nasce refém de suas certezas, pois, ao passo que desconheça seus fundamentos básicos, tornar-se-á um agente viral combatido não somente pelo grupamento em questão, mas por si mesmo. “A integridade física não resiste à dissolução da personalidade social” 2 diz Lévi-Strauss, encadeando uma nota de rodapé na qual explica o porquê de sua afirmativa, ao descrever o caso de um aborígene que, acreditando-se vítima de um enfeitiçamento - como se algo de substancialmente físico houvesse em uma conjuração maledicente -, apresentou sintomas de alguma moléstia não-detectada, tendo que ser internado em um hospital para se restabelecer; prova de que o poder da fé atua como um placebo espiritual, para o bem ou para o mal.

Feiticeiro Zuni

Ainda no mesmo texto, Lévi-Strauss apresenta um caso ocorrido na tribo Zuni da cidade do Novo México (EUA), não vivenciado por ele, mas pela etnóloga estadunidense Matilda Coxe Stevenson (1855-1915), que segundo relato publicado em texto de 1905, presenciou o julgamento de um adolescente acusado de feitiçaria; prática proibida e penalizada com a morte na tribo em questão. Todo o mal entendido tivera origem após o jovem agarrar as mãos de uma menina de doze anos no exato momento em que esta fora acometida por uma crise nervosa, fato este atribuído a um suposto feitiço lançado contra ela. Ao jovem restou, inicialmente, negar a acusação, mas seus esforços se demonstraram inúteis, fazendo com que tivesse a idéia de subverter sua estratégia de defesa ao afirmar ser realmente um feiticeiro. O pseudo-feiticeiro administrou seu julgamento a partir de uma fabulosa narrativa, na qual não somente assumiu sua condição sobrenatural, como ainda afirmou que seus mestres espirituais o haviam ensinado a receita de duas poções: uma que enlouquecia e outra que curava as mentes perturbadas por maus espíritos. Fora então conduzido à sua casa para que produzisse tais poções, o que fez, tomando duas raízes e simulando um ritual mágico que culminou em uma performance na qual, após tomar a pretensa solução enlouquecedora, o teria mergulhado em transe místico. Em seguida bebeu a segunda solução que, prontamente, “restabeleceu” o controle de sua mente. Após ministrar o “remédio” na jovem e declará-la curada tudo parecia se arrumar, mas temendo ter sua farsa descoberta, imprudentemente o jovem tentou fugir à noite, sendo capturado no momento em que se evadiu do claustro a que fora confinado; atitude que não somente deslegitimou sua confissão anterior, como o obrigou a elaborar uma nova narrativa que prolongasse seu julgamento, tal qual uma Sherazade nativo-americana. E esta segunda tentativa é exemplar no que concerne a presente discussão, pois, diante da constatação de que sua versão anterior já não conservava o ineditismo que a sustentou brevemente, ousadamente resolveu mudar o rumo do relato ao creditar sua condição de feiticeiro a uma herança ancestral, comprometendo não somente a si, mas aos seus familiares. Relatou que entre as práticas que aprendera, encontrava-se a habilidade de se transmutar em gato, mediante o uso de plumas mágicas, assim como encher sua boca de espinhos de cactos venenosos de modo a eliminar possíveis vítimas. O jovem foi impelido, tal qual na primeira vez, a provar sua estória apresentando a tal ferramenta mística, o que fez a contragosto, sem saber como se livrar daquela situação. Ao chegar a sua casa, e aflito diante do problema em que se metera, disse que as tais plumas haviam sido escondidas nas paredes de sua residência, mas que não recordava precisamente sua localização. Insensíveis às suas desculpas os juízes fizeram-no destruir as paredes em busca da prova de seu relato, o que executou prontamente, mas desesperançoso do sucesso. Entretanto, após muito tempo gasto de maneira infrutífera, em um lance de sorte pinçou no meio da argamassa uma velha pluma na qual se agarrou como último fio de esperança em provar seu relato. Após isso foi levado para o centro da aldeia para que apresentasse à tribo sua defesa, o que fez, enriquecendo a narrativa com mais detalhes a fim de seduzir sua audiência, mas desculpando-se por não poder assumir a forma animal, pois teria perdido seus poderes em definitivo. Desta maneira o jovem terminou seu falso relato, o qual, surpreendentemente, foi suficiente para absolvê-lo do crime imputado, pois o elemento material - acima de toda a teatralização - bastou para sedimentar a convicção dos presentes acerca da fábula perpetrada. Como se o fato de, hipoteticamente, ter desferido um feitiço contra um membro de sua tribo, fosse menos grave do que não conseguir provar sua condição de feiticeiro.

Neste desfecho é claramente perceptível a natureza essencial da fábula, sem a qual a mesma indispõe de subsídios para se sustentar como verdade. Provas materiais são constantemente apresentadas de modo a pontuar a narrativa fantástica, respaldando-a com dados concretos, pois mesmo em um grupamento social posicionado a favor de um universo metafísico, este só pode ser acessado a partir de elementos físicos, como portais de acesso a uma consciência amplificada de existência. Frágeis vestígios 3, mas que tem resistência para alicerçar seu mundo de crenças, sem os quais o mesmo desmoronaria vitimado por sua insubstancialidade.
Lévi-Strauss destaca que o motivo de ser do julgamento é preterido em função do motivo de ser daquela sociedade, amparada moralmente em um universo místico:
Os juízes não esperam do acusado que ele conteste uma tese, e menos ainda que refute fatos; exigem-lhe que corrobore um sistema do qual não detém senão um fragmento, e do qual querem que reconstitua o resto de uma maneira apropriada.(...) A confissão, reforçada pela participação, a cumplicidade mesma, dos juízes, transforma o acusado, de culpado, em colaborador da acusação. Graças a ele, a feitiçaria, e as idéias que a ela se ligam, escapa a seu modo penoso de existência na consciência, como conjunto difuso de sentimentos e de representações mal formuladas, para se encarnar em ser de experiência. O acusado, preservado como testemunha, traz ao grupo uma satisfação de verdade, infinitamente mais densa e mais rica do que a satisfação de justiça. 4                                                                                               
                                                                                                                                                    
Continua...

1 LÉVI-STRAUSS, Claude. O Feiticeiro e sua Magia in: Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. Pg.194
2 LÉVI-STRAUSS, Claude. Op. cit. pg. 193
3 A palavra “vestígio” será constantemente usada nesta série de textos, e sua conceituação responde à produção de objetos, documentos e elementos diversos que funcionem como  registros indiciais da obra de arte. Ou, em outras palavras, elementos probatórios de algum discurso fabular, que reitere sua existência no mundo. Geralmente tais “documentos” são também obras de arte, e funcionam como extensão da mesma, para outros suportes midiáticos.
4 LÉVI-STRAUSS, Claude. Op. cit. pg.200

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