domingo, 28 de novembro de 2010

Vestígios como elementos probatórios da fabulação - Parte 2: a fábula na cultura de massa

Continuando a série sobre o poder das fábulas enquanto mecanismo narrativo, convém esmiuçar a primeira grande fabulação moderna amparada no poder da mídia: Orson Welles (1915-1985) e A Guerra dos Mundos, que tal qual o relato ocorrido na tribo Zuni, expôs a vulnerabilidade do homem na perspectiva da fábula. Ambas as sociedades (tribal e industrial) pautam-se em prerrogativas transcendentais, como se ao buscar estender a experiência ontológica para outros planos, estendesse também a vida, resgatando-a de sua inevitável efemeridade e lançando-a para outras possibilidades existenciais. Quanto ao ineditismo consensualmente pregado acerca do ato de Welles, decerto que se vasculharem as práticas artísticas anteriores a este evento, pode-se encontrar alguns exemplos perdidos, mas a despeito destas hipotéticas ações pretéritas, nenhuma alcançou a dimensão que a supracitada narração radiofônica. No amplamente conhecido episódio protagonizado pelo então jovem cineasta (anteriormente à revolução estética perpetrada pelo seu Cidadão Kane ocorrida apenas três anos depois da polêmica transmissão), a adaptação radiofônica do romance de ficção científica A Guerra dos Mundos do escritor britânico H.G. Wells (1866-1946), constituiu, segundo alguns teóricos situacionistas, o primeiro exemplo relevante de Mídia Tática do séc. XX. O enredo, que trata de uma invasão extraterrestre à Terra, seria apenas mais uma obra literária a ser adaptada em uma dramatização de rádio, se não fosse pela estrutura narrativa utilizada por Welles: a de um boletim jornalístico.


Orson Welles nos estúdios da rádio CBS (1938)
Às 20:00 h. do dia 30 de outubro de 1938, véspera de Halloween, a rádio CBS de Nova York dava início ao episódio que marcou a comunicação de massa, e, intencionalmente ou não, objetivou seu uso de maneira enfática. Inusitadamente interrompendo a transmissão da orquestra que tocava, um urgente plantão jornalístico anunciou a queda de um meteoro nos arredores de Nova Jersey, mais especificamente na cidade de Grovers Mill. Nada haveria de tão absurdo no presente fato que justificasse tamanho alarde (considerando que quedas de meteoros são mais comuns do que se pensa), caso não se costurasse a esta informação o aflito relato de um fictício astrônomo de nome Richard Pierson (interpretado pelo próprio Welles), o qual afirmara ter observado por meio de telescópios, estranhas explosões ocorridas na superfície de Marte durante os últimos meses daquele ano. Seguiram-se entrevistas com autoridades bem como constantes transmissões de um repórter da CBS direto do local da suposta queda dos meteoros, dotando todo o episódio de uma assustadora veracidade.
No decorrer do relato, que interrompia intermitentemente a programação normal, Welles levou a cabo sua dramatização de um ataque alienígena que, não por acaso, se coadunava às tensões da sociedade, alimentadas pela iminência da 2ª Guerra Mundial devido à incontrolável expansão nazista ocorrida na Europa.



Em um dado momento o repórter declarou que a cidade de Grovers Mill estaria sob ataque de seres saídos de dentro dos supostos meteoros, aniquilando com disparos de raios térmicos o comboio do exército que rumara para o local. Quarenta pessoas teriam morrido no primeiro ataque, seguido de mais sete mil dos militares destacados para o ponto zero da invasão. Outros meteoros teriam sido encontrados nos arredores da cidade, liberando mais centenas de alienígenas que passaram a rumar em direção à ilha de Manhattan.
  O que se conta é que aquilo que começara com um leve desconforto dos ouvintes, logo se converteu em histeria coletiva, a tomar pelo congestionamento das linhas telefônicas de emergência. Foram relatados casos de cidadãos que saíram às ruas armados para caçar os invasores fictícios, enquanto outros tantos se trancaram nos porões pondo-se a rezar por uma salvação.
Obviamente que as informações do que realmente ocorreu naquele dia estão permeadas de enxertos hiperbólicos, inclusive pelo próprio cineasta, de modo a mitificar esta ação.  Talvez nem um terço da população que o ouvia naquele momento tenha se mobilizado da maneira que se convencionou contar, mesmo porque, como pode ser comprovado pela audição da gravação original, antes do início do programa fora anunciado que o que se ouviria a seguir tratava-se de uma adaptação do clássico texto. O que de fato ocorreu, e que pode explicar o porquê dos transtornos ocorridos, foi que parte dos ouvintes passara a acompanhar o programa após iniciado, pois este começara dez minutos antes do encerramento do show de variedades de maior audiência da época: Chasen and Saborn Hour, veiculado pela concorrente NBC. Isto certamente colaborou para o equívoco daqueles que sintonizaram a estação da CBS posteriormente, induzidos pela forma apresentada, a acreditar que se trataria de um noticiário real. Os resultados desta ação puderam ser constatados no dia seguinte ao ocorrido, quando os principais jornais do país destacaram em sua primeira página a indignação criada pela rádio, ao ludibriar parte de seus ouvintes com a dramatização de um texto fictício em roupagem documental. 


Primeira página do The New York Times, do dia 31 de outubro de 1938,
noticiando as repercussões da "pegadinha" de Welles
Houve de fato alguma histeria, que independente de qualquer outra questão ética que insurja desta discussão, levantou uma importante reflexão acerca da operação perpetrada por Welles que, ao se utilizar do mecanismo midiático, trouxe à luz a dependência que a sociedade tinha em relação àquele meio de comunicação até então predominante.
Certamente, se este mesmo fato fosse executado nos dias que correm, a repercussão não teria sido a mesma, e não pela súbita clareza crítica herdada pela sociedade em relação à mídia, mas pela velocidade das informações em uma sociedade interconectada, fazendo com que qualquer embuste do tipo fosse facilmente desmascarado. Para que o mesmo funcionasse, seria necessário amparar tais informações em outros pontos de convergência, de modo a garantir uma maior extensão da informação no espaço midiático, fazendo-se imperativo apresentar vestígios desta pretensa verdade.
Um famoso exemplo é o filme de terror adolescente A Bruxa de Blair (1999) que chamou atenção ao fazer uso, ainda nos primórdios da internet como a conhecemos, de um tipo de publicidade que se convencionou chamar de marketing viral. A produção de baixíssimo custo ($ 35.000), graças à interessante estratégia de marketing, conseguiu arrecadar mais de 140 milhões de dólares em solo estadunidense e totalizando 240 milhões ao redor do mundo. Vendido como uma história verídica, o longa partia da premissa de que três jovens estudantes de cinema, pretendendo produzir um documentário sobre a lenda da Bruxa de Blair (atual Burkytsville cidade localizada nos arredores de Washington), teriam sido dados como desaparecidos e um ano após o ocorrido, parte do material que produziram fora encontrado em uma velha cabana próxima a floresta da cidade. Os diretores Daniel Myrick e Eduardo Sanchez construíram uma mitologia para a lenda que remetia ao ano de 1785, na qual é contado que tudo teria se iniciado com a execução de uma irlandesa de nome Elly Kedward, tida como bruxa pela população da cidade após ser acusada por crianças da região de lhes haver retirado um pouco de sangue. Um ano depois, todos os envolvidos em sua punição e metade das crianças da cidade teriam desaparecido sem deixar vestígios, o que fez com que o restante da população abandonasse o vilarejo dando início à lenda da bruxa de Blair. Um site foi montado com fotos e relatos extraídos do diário de produção dos jovens desaparecidos, seguida de uma intensa campanha de divulgação empreendida nos meios de comunicação, sempre ressaltando a pretensa veracidade da produção. 


Material de divulgação do filme, o qual divulga o desaparecimento do trio de documentaristas.
A estratégia de marketing foi finalizada com a exibição de um documentário em um canal de TV a cabo que relatou a investigação referente ao desaparecimento dos jovens. Toda esta operação acabou dando ainda mais respaldo à fábula criada pelos cineastas. Mais de vinte milhões de pessoas acessaram o site e compraram a estória vendida pelos cineastas, fazendo com que um filme de qualidade precária (filmado em películas super 8  e 16 mm), com um roteiro pautado nos piores clichês do gênero e interpretado por não-atores, alcançasse tamanha repercussão. Antes de qualquer mérito cinematográfico, os quais seriam muito poucos se analisados esteticamente, este episódio ressalta o mérito da fábula, amparada inteligentemente nos meios de comunicação. O grande valor deste episódio reside nesta operação, muito mais interessante como estratégia do que como produto final, que articulou uma série de meios a fim de se criar uma atmosfera de realidade capaz de arrebanhar um público cada vez mais voraz na busca por informações. Desconte-se o fato de que tal ação tenha ocorrido no já longínquo ano de 1999, quando a Internet apenas engatinhava em termos de possibilidades, sobram os mecanismos da operação perpetrada pela dupla responsável pelo filme, que se valeu de uma série de suportes midiáticos (TV, internet e jornais) para converter sua fábula em fato comercial.

Continua...

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